É inevitável não sentir o peso da reprovação. E você pode parar por aqui se quiser permanecer na superfície…

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Hoje preciso falar de algo que dificilmente destrincharia num texto comum, porque não é dos mais aprazíveis de se ler.
Talvez o leitor esteja iniciando a jornada pela medicina agora, e só veio em busca do exemplo de um guerreiro que luta com o sorriso estampado no rosto, que não consegue transmitir dor, insegurança, decepção ou qualquer sentimento que o torne humanamente tangível, quase irrisório, pois precisa de alguém que inspire vitória, e que seja precoce nos resultados. Infelizmente essa figura não é a regra. Ou, talvez você seja veterano de luta, que só procura ânimo para recuperar o fôlego e ter que enfrentar mais um duro ano.
Ao analisarmos a relação de candidatos por vaga de qualquer prova de medicina. De toda aquela relação, poucos são os que conseguem ir para a segunda fase (se tiver). Menores ainda são os que conseguem passar, seja em primeira chamada, seja em último na lista de espera. Porém, enormemente maior é o número de candidatos que voltam para a “fila” do vestibular, que não necessariamente se mantém na ordem em que parou. Muitos que estavam na frente podem variar de posição, porque não existe justiça nisso tudo. E o ser humano é um pêndulo ambulante que em algum momento atinge bons resultados de seu potencial, mas, que pode tender ao baixo rendimento por muitos fatores. 

Isso significa que muitos que estão no final dessa fila imaginária, podem ultrapassar aqueles que estão na dianteira, e quem assume a ponta, pode cair abruptamente… E por qual motivo?
Isso varia. Vou citar e explanar alguns cruciais que me afligiram…

O que te faz ser ultrapassado?

• Bloqueio mental…

Eu já tive isso. O candidato até consegue demonstrar conhecimento durante o preparo. E muitas vezes ser um dos melhores nos simulados, ir bem nas questões, atingir resultados surpreendentes enquanto se prepara. Que fariam com que ele conseguisse passar em primeira chamada. Porém, ele negligencia seu bloqueio que vai se desenvolvendo gradualmente, como uma espécie de “bola de neve”. Chega um momento que esse monstro de gelo (continuando na mesma metáfora) é tão grande, que ele não tem mais resistência para impedir seu rolamento, fatalmente favorecido pela gravidade terrestre.
No meu caso o bloqueio era referente à quantidade de acertos nas provas e à um teto de médias que eu não me via capaz de superar e, dessa forma, sempre parava num teto; demorou pra me livrar desse bloqueio, e ele realmente foi algo limitante em alguns dos meus anos prestando.
Para alguns, quando chega o momento de estar psicologicamente estável, na reta final… Os sentimentos e pensamentos de fracasso vão ressurgindo (por mais que o ano tenha sido maravilhoso), porque ao vivenciarem aquele clima de prova, a muvuca de pessoas com camisas de cursinho, todos aqueles “nerds” reunidos no mesmo lugar, com a mesma finalidade, rememoram os tempos de reprovação, até as sensações de medo e falta de preparo (mesmo num ano de muito estudo), aquelas pessoas aparentam estar mais preparadas e ter mais repertório. Eu só melhorei esses pontos no momento em que parei de olhar para os outros e me centrei no meu desenvolvimento. Me adotando como referencial.

• Persistir nos mesmos métodos que não te fizeram passar…

Também já cometi esse erro.
Ilustro isso com uma frase célebre de Albert Einstein: “Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”
Às vezes nos sentimos seguros demais pra querer mudar. A mudança é algo que atemoriza, por gerar a insegurança de tal ato dar muito certo, ou completamente errado. 

Exorbitantemente enxergamos apenas a possibilidade da falha. Persisti nesse erro quando optei fazer o mesmo cursinho pela terceira vez, pelo fato de me sentir bem naquele lugar. Por ter crescido nos dois anos anteriores. E achar que seria igual…
Aos poucos isso foi se revelando uma decisão muito equivocada. Porque justamente nesse terceiro ano, tive uma queda em meu desempenho. Foi doloroso regredir. E por qual motivo isso aconteceu? Cheguei no pico da minha curva. E inevitavelmente cairia. Se quisesse subir mais, precisaria mudar a variável que controla meu ritmo de crescimento, e a efetividade deste. Eis que alterei o coeficiente angular dos meus estudos, que nada mais era que o método utilizado. E ousei por optar pela mudança como via de regra. Se não tivesse feito isso, o resultado poderia ser ainda mais catastrófico. E foi nesse momento que transformei meu lema de vida num termo que li em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, cheguei a escrever sobre isso: “Tempora mutantur”.

• Achar que já domina os conteúdos…

Acho que esse é um erro comum de quem é veterano de cursinho e adentra em mais um ano prestando. Eu também cometi esse erro.
Houve um momento em que me sentia com tanto domínio dos assuntos, que pensava ser inútil “perder tempo” assistindo aula. Me sentia enfadado com as aulas e já previa tudo o que o professor iria dizer, ou demonstrar. Erro letal. Eu simplesmente decorei as aulas, mas, não entendi a profundidade daquilo.
Nesse ponto que descobri meu potencial para estudar sozinho, pois faltava e matava algumas aulas para estudar em casa ou na sala de estudos. Me senti encorajado a abandonar o presencial no ano seguinte (veja que nem tudo acaba sendo ruim na reprovação). Porém, sofri danos severos do próprio golpe de me sabotar com a ideia de só precisar “lapidar” algumas coisas e que já estava na dianteira da “fila” imaginária do vestibular.
Nessa reta final (larguei o cursinho faltando um mês para as provas) optei focar só em exercícios e provas antigas.  Nesse momento de teste, caí das “nuvens” e notei não estar  tão bem como pensava que estava. Me perdoem, mas usarei novamente “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para ilustrar essa quebra de perspectiva, pois a frase se encaixa perfeitamente com esse momento de realidade: “Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.” (concordo com Machado… rs).
Conforme ía fazendo as provas antigas, me sentia ainda mais decepcionado por ter me superestimado e pra piorar, não daria tempo de recuperar o prejuízo da densidade daqueles conteúdos.
Lembro que muita coisa veio somar negativamente nesse ano, já comentei dos meus problemas pessoais em outras postagens, foi um ano literalmente complicado e de perda familiar. Só depois disso que tive coragem de começar do zero num novo método e com uma nova filosofia, repensei minha vida e apliquei no ano seguinte, esse foi um acerto.

• Negligenciar problemas psicológicos e emocionais em prol da rotina do vestibular…

Já comentei sobre esse erro. Eu acertei na questão de mudar meu método de estudos, repensar meus passos e optar por estudar sozinho. Entretanto, pela série de problemas que passei anteriormente, acabei deixando de lado muitos problemas gerados pelo caos que vivi no pior ano da minha vida (2016). Um ano de perda…  Após o novo princípio, acabei não trabalhando as consequências afetivas do rompimento que tive em minha estrutura familiar. O que eu fiz? Simplesmente, engatei a marcha vestibular e ignorei tudo o que estava a volta. Inclusive, meus sentimentos e abalos.
Chegou no dia da Fuvest, principalmente, e tive um início de crise de ansiedade, senti um breve momento de pânico e me desesperei por tudo o que estava acontecendo ali. Olhei as questões desconexas (em minha mente) e perdi muitos minutos sem conseguir respirar e focar nas coisas que eu tinha estudado. É como se eu não tivesse entrado na prova. Eu simplesmente estava com um frio na barriga, com a respiração descompassada e com o cérebro a mil, sem conseguir puxar e encadear as coisas que treinei. Só melhorei depois de inspirar e expirar profundamente, até neutralizar o efeito angustiante daquele momento. Eis que depois de sair da prova percebi que não passaria. Terminei com bastante dificuldade. Não em relação aos conteúdos, mas, em me manter concentrado. Resolvi isso só no ano seguinte (ano passado) quando passei a não negligenciar esse lado fundamental da vida. 

Algumas considerações 

Precisei detalhar bastante esses motivos que me fizeram voltar na “fila” do vestibular. São pontos cruciais e que podem trazer muito prejuízo para quem já tem algum tempo de preparo, ou até mesmo pra quem opta iniciar. Além disso, falta explanar algumas coisas que estou trabalhando nesse ano de 2019, diagnósticos prévios que já observei que poderiam trazer prejuízos na qualidade dos meus estudos, mas que já estou aplicando uma solução de reparo no início para evitar problemas futuros.

Por mais consistente que seja o psicológico de alguém resiliente, em algum momento na solidão do lugar em que presenciou – talvez –  anos de luta e superação, os sentimentos de tristeza e decepção vão surgir.

Pra quem nunca prestou vestibular, isso é imperceptível. Todavia, quem já sentiu na pele o pesadelo de ver todos adiante, e se ver na condição de ter que recolher os cacos para mais um ano, tem que aprender a lidar com esse sentimento, porque ele não vai se ausentar por muito tempo. Eu estou trabalhando isso através da blindagem de alguns focos que tragam esses pensamentos. Vou falar sobre isso ao longo desse desfecho. 

Infelizmente, alguns de nós não resistem e pela pressão social, familiar e própria, optam por iniciar outra graduação. Abrindo uma porta que em muitos casos, torna-se definitiva, enterrando de vez os resquícios da medicina, como uma vida que não pôde acontecer. Eis que a medicina morre para essas pessoas, e para parte delas, nasce a frustração que será companhia para o resto de suas vidas.
Essa crueldade  se chama “vestibular de medicina”. Quem não conhecia antes dessa leitura, passa a ter um pouco da dimensão disso, o ingresso ao curso mais concorrido do Brasil, que abre vãos entre pessoas realizadas, pessoas não realizadas, e pessoas realizadas e não realizadas. Como assim, Alê? Bom as “pessoas realizadas e não realizadas” é um paradoxo até que recorrente, muita gente consegue e cursa medicina, sente-se realizada por ter cursado e se formado, mas fez isso por status, apenas pelo dinheiro, ou simplesmente por pressão familiar, ou por outros motivos não listados, fato é que o vestibular é um evento cruel. Que independente da nossa fúria, crítica e questionamentos, não vai mudar tão cedo.
Sonhos que antes eram lindos e pueris, tornam-se truncados, autodestrutivos ou quase impossíveis assim que aquele que sonha adentra na realidade da busca pela medicina. Alguns dão a feliz sorte de terminarem esse processo complicado antes de sentirem os impactos. A maioria, não passa pelo mesmo processo. E é muito compreensivo que muita gente desista. Porque é exorbitantemente difícil se manter motivado depois de tantos obstáculos. Porque esse processo pode trazer mais perdas do que conquistas. As renúncias que te fizeram estar aqui lendo esse texto, fizeram-te mudar muito… E matar parte da sua existência anterior, sem considerar se era uma parte boa ou ruim… 

• O que eu disse que estou trabalhando em mim nesse ano?

Não vou te prender por mais tempo de leitura, mil perdões por ser descontroladamente amante de compartilhar minhas experiências.
Vamos lá…

Nesse tempo de preparo fazemos muitas amizades e conhecemos muitas pessoas que objetivam o mesmo sonho que o nosso. Isso é algo positivo, pois há a troca de experiências e inevitável enriquecimento sociocultural. Todavia, é consequente que o tempo de aprovação seja diferente na maioria dos casos. E que nos encontramos em momentos difusos nesse processo. Portanto, presenciaremos pessoas próximas conseguindo passar. E é humanamente compreensível que tenhamos aquela ponta de decepção com nós mesmos. Eu não vou negar que senti isso esse ano. Me senti feliz pelo resultado, mas, decepcionado por achar que poderia mais, por saber exatamente como me preparei em todos os eixos e ter que me pôr novamente na situação de vestibulando. É incômodo ficar preso, estagnado, e ter que fazer planos para o cursinho que farei esse ano. Isso se funde complexamente ao sentimento bom de estar lutando pelo meu sonho, algo que já é raro, visto que poucas pessoas têm oportunidades nesse país. Ainda tenho amigos e conhecidos com mais ou menos tempo que eu prestando. E presenciei parte sendo aprovada. O que era previsível de acontecer em algum momento. E eu fico feliz que isso tenha acontecido, por acompanhar. Mas, não sou tolo de dizer que isso não fez com que eu me sentisse um pouco pressionado. Não por ninguém, mas por mim mesmo. Misturou-se um pouco de decepção, com uma sensação de que eu tinha condições de conseguir os poucos pontos que faltaram para passar.
É difícil dizer isso, até porque no momento em que você decide se dar mais um ano, tudo aquilo é uma parte sincera que vai lutar pelos pontos que faltaram. Só que faltando um dia para iniciar meus estudos, é impossível não dar esse desânimo, ao pegar minha mente pensando nas pessoas que deram adeus à tudo isso e cair a ficha de que amanhã volto à rotina desgastante do vestibular para posteriormente passar por isso tudo de novo, todo esse processo mentalmente desgastante de fazer as provas e aguardar os resultados que parecem nunca chegar! É bom ter esse blog, porque me sinto bem ao dizer isso. Tenho certeza que muitos que estão lendo, passaram (ou passam) por isso, mesmo que não comentem. Nossa sensação é recíproca.


• O que fiz para trabalhar isso?

O principal foi ter dado um tempo nas coisas que estavam aguçando minha ansiedade, visto que nesse período vemos as pessoas passando e nós, por mais que tenhamos nos esforçado de forma sobre-humana, temos que enfrentar mais uma dura matrícula no cursinho.
Se você deduziu que meu isolamento é em parte por causa disso, inferiu certo. Desativei minhas redes sociais para me blindar mentalmente de tudo o que me dê essa sensação angustiante de não ter conseguido, e pra não ter que receber mensagens desagradáveis perguntando se passei (como se não tivéssemos ciência de que nosso nome é vasculhado no google para ver se passamos). Ter feito isso me dá a sensação de que só alguns meses me separam da minha vaga na Faculdade de Medicina (pouquíssimos, comparados com os anos que se passaram).

Por mais duro que possa parecer, ter admitido honestamente que isso estava me fazendo mal foi o primeiro passo para voltar a respirar e ter paz para dar a cartada final. Me blindar mentalmente foi uma decisão pensada e que já traz bons frutos de paz e sanidade para seguir.
Outra coisa… Canalizar o gostinho de que faltou pouco me motiva a estudar focado e com alta performance, como se eu sentisse que é o último ato em busca da medicina e por isso, devesse dar uma ênfase e sabor especial, porque não verei mais essas paredes com fórmulas, anotações e rabiscos de todo gênero. É como se meu instinto me dissesse (por mais que a razão comande minhas ações) que estou no final de um processo, e preciso aguentar só esse ano.
É aí que surge uma força extra que pensei que já estava sucumbindo. É a sobrevida que faltava para dar o ultimato. Foi exatamente essa sensação que me fez optar por estudar mais esse ano.

Considerações finais

Então, gente… É isso!
Peço humildemente que entendam que essa é a minha acepção de um processo ininterrupto de aprendizagem. Estou metamorfoseando para que o próximo passo seja continuado na Faculdade de Medicina. Mas, assim que passar, não significa que estarei mais sábio, nem, tampouco, mais ingênuo que agora. Só que terei mais campos de aprendizado. A vida é uma oportunidade para aprender. E para mim só se finda, quando achamos que já aprendemos tudo e que não há mais o que saber. Mesmo que biologicamente vivos, não estamos existindo com vitalidade. E esse limbo é uma morte precoce e deprimente. 
Desejo um ano maravilhoso de estudos à todos! E pensem profundamente nas coisas que foram pautadas nessa postagem. Que resolvi criar com máxima transparência, porque sei que muitos estão passando por isso. Ainda tenho muito o que aprender, o que buscar e o que crescer, mas, posso afirmar convictamente, que a única regra dessa voracidade com que os tempos mudam, é que a dúvida permanece a existir. E as certezas, cada vez sucumbem mais.
Abraços! E mantenham-se firmes! Amanhã começo meu derradeiro ciclo, vamos que o Jaleco está nos esperando!!
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