Você se ouve?

 

Post-4-B2
“Uma parte dos homens age sem pensar e a outra pensa sem agir.”  Jean-Jacques Rousseau

A pergunta vai além do título. Você já parou para se ouvir? E se fez isso, já aplicou suas inferências alguma vez?
Em ano de vestibular acabamos executando muito a primeira parte da indagação da frase de Rousseau, ligamos o modo automático e seguimos uma vida de acrasia, porque mudar é enfadante, em alguns casos traz medo ou simplesmente não é conveniente, podendo ocasionar – segundo nosso pensamento mais sabotador (que nem sempre está certo) – ansiedade, desordem e sensação de que deveríamos estar estudando. Sim, é a maldita auto-perseguição de vestibulandos em crise, que ignoram a necessidade de se conectar com suas singularidades, arrumando sempre justificativas para não atendê-las.
Talvez, assim como alguns exemplos, seja possível a aprovação sem a necessidade de buscar autorreflexão. Realmente, o objetivo é exatamente ser aprovado; entretanto, as consequências das nossas abdicações interiores vão além da fase de vestibulares. Vocês já pensaram nos impactos que essa ausência desencadeará em toda a vivência na medicina, na vida pessoal, nas relações interpessoais e na forma como interagimos com o mundo? A princípio não é tão evidente. E talvez pareça torpe, ou até mesmo uma exigência que não convém num momento de plena dedicação. Mas, elucidarei o exemplo que um amigo me passou – acredito que em algum momento falei disso, mas, não recordo em qual texto -. Meu amigo disse que na faculdade de medicina que ele cursa, um professor contou aos calouros que alguns de seus alunos do último ano estavam um pouco desnorteados na vida, pois não criaram laços fora daquele ambiente, laços para vida, além de terem se privado de muitas necessidades das suas individualidades, em prol de exclusivamente se dedicarem ao curso, sem nenhuma experiência exterior que preenchesse o interior deles. É algo bem triste de imaginar, chegar ao final de um ciclo em que você tanto desejou que durasse, mas não estar com condições mínimas de seguir em frente, na profissão que você escolheu. Eu não penso apenas em passar em medicina. Penso na faculdade, penso na residência, penso na vida médica fora da universidade, na minha saúde mental, penso na vida completamente desatrelada à profissão, penso nas pessoas que perderei e em como precisarei estar firme para conseguir lidar com todas as mudanças que virão, isso inclui o envelhecimento. É difícil imaginar estar prestes a findar a primeira etapa do seu sonho, e não ter um significado além da perspectiva conhecida. É como o vestibular. Já passei pela situação de me sentir com conteúdo para prova, ter conhecimento para poder buscar a aprovação, mas, não estar preparado para a aprovação. É contraditório isso. Entretanto, às vezes, pode ser um choque ser aprovado. É uma mudança gigantesca na sua vida, já tive medo de ser aprovado, confesso… Conversei isso com meu amigo também. Ele ficou em choque quando foi aprovado, chegou a sentir medo também. São muitas mudanças, por isso, você precisa estar pronto e tem que refletir sobre as coisas, aplicar algumas conclusões para seu bem-estar, além de não negar alguns prazeres inerentes à sua humanidade. Sabe-se lá a proporção das devastações que tais abdicações trarão à sua vida. É primário que, antes de se tornar médico, você é humano. E não deixará de ser humano até o momento em que suas moléculas se desagregarem. Portanto, precisa se permitir experimentar suas necessidades, não importa quais sejam (desde que não prejudiquem outras pessoas – risos). Não se prive. É maravilhoso pensar que seremos médicos e se você está numa fase de grande aprendizado e sente que é seu ano, é melhor ainda. Entretanto, até o ponto em que nossos conhecimentos conseguem elucidar a vida, não existe nada após a linha de chegada. As religiões buscam confortar o ser humano nesse aspecto tal como a filosofia, cada qual com seu método, mas, se fôssemos buscar um ponto de convergência entre ambas, é que nenhuma das duas traz plena convicção no que possa existir (ou não existir) além da morte. Então, só cabe à você arriscar; a escolha é só sua. Se acredita que morrerá e terá um lindo lugar para a eternidade, corra seus riscos, sabendo das consequências. Se acredita que a morte é a continuidade da vida (tal como os antigos egípcios), viva sereno com suas escolhas e seus retornos. Se acredita na reencarnação, aproveite enquanto está vivendo seu exclusivo momento como você, essa é sua única existência com suas singularidades; colha seus frutos. Se é ateu, possui ainda mais motivos para viver sua finitude, porque a vida acontece agora, somente agora, mas, como em todos os outros casos, as consequências são suas. Independente das suas crenças, o tempo para vida humana é finito. E cada segundo desperdiçado são menos abraços, menos sensações, menos pensamentos, menos leituras, menos respiração, menos prazeres reais que nos façam dizer “valeu a pena existir para sentir isso!”
A vida é essa coisa incrivelmente complexa, que mesmo em momentos difíceis, nos faz ter novas experiências e tirar lições de tudo. O importante é: sentir. Não importa quais os seus métodos para isso (lembrando novamente, desde que não prejudique o outro – risos²).

Mas, cara… Eu tenho que estudar, já estamos em julho! Acorda! Essa maluquice não dá para ser aplicada… Por isso que você não passa…

Como disse anteriormente, especialmente na parte em que justifiquei com algumas religiões ou ausência delas: a escolha é sua, as consequências também. Os impactos das suas escolhas te acompanharão a vida inteira. Não é apenas renunciar-se para cursar medicina. Proibir-se de ter esse momento introspectivo é negar-se a oportunidade de ser um ser humano que te orgulhe mais, é reduzir a possibilidade de sentir-se pleno, mesmo após a realização. É respirar a fugacidade que o mundo contemporâneo (que é regido pela velocidade do consumismo) te impõe. É ampliar as chances de se frustrar, por esperar que a medicina te fizesse feliz; nada que está no mundo concreto pode te fazer feliz por muito tempo. A felicidade está na sua capacidade de dialogar com os seus pensamentos, de conseguir executar boa parte deles, e independente das consequências, não renunciá-las, buscando crescer mais pela reflexão e o questionamento de si, sem fugir dos problemas. Entretanto, como o próprio Rousseau afirmou na frase em que citei, especificamente, na segunda parte: “… pensa sem agir”, essa é a parte de não sentir suas vontades. Deixando-as apenas no mundo das ideias, sem poder usufruir verdadeiramente delas. Ambos são problemas, por frearem o ser humano. A solução é novamente a ideia da prudência de Aristóteles que citei no texto anterior, cuja ideia resume-se em: “A virtude consiste em saber encontrar o meio termo entre dois extremos.” Justifico… Só pensar, não te traz a verdadeira vivência das suas ideias cruciais, e só agir mecanicamente, não te faz ouvir seus pensamentos para saber suas reais necessidades. O equilíbrio está em saber dosar os momentos em que precisamos pensar, e aqueles que só precisamos aplicar o que pensamos em algum ponto do nosso ócio. Existem momentos em que você precisa, de fato, ter sua rotina de estudos, isso é básico numa organização eficiente. Entretanto, ressignificar algo, flexibilizar outro, adaptar tudo às suas necessidades, levando em consideração a sua humanidade, é algo necessário para quem pensa além de ser aprovado. E quem determina tudo isso? Espero que sua resposta seja “eu”.

Ok! Até entendi seu ponto de vista. E agora concordo com alguns aspectos. Mas, não consigo entender: por que você só descobriu isso agora?

Simples. Eu vivia na acrasia. Fazia pouquíssimo esforço para mudar algo em minha vida, isso acabou me prejudicando por anos. Não dei espaço para reflexões. Neguei o ócio produtivo que ajustaria alguns pontos em minha vida. Não entendi que a importância não está em ser aprovado, mas, sim em viver a minha primeira etapa com plenitude, visando um bem-estar que se prolongue para a vida inteira. Se você pensa que isso é auto-ajuda, pode findar tudo o que leu até aqui, pois leu de forma apática e sem buscar entender a importância dessas descobertas, não correlacionando uma vírgula às suas experiências. A filosofia não responde, te faz refletir. A auto-ajuda responde, mas, não necessariamente te faz atingir algo. Tudo depende de você. É triste isso, muitos hoje leem com indiferença, vivem apáticos e são guiados pelas determinações que a sociedade os impõe. Espero que você seja diferente, e viva de olhos abertos.

O que você tira de lição da mudança filosófica que acredita estar te moldando para melhor?

Não vivo apenas para o vestibular. Eu tenho sim meus compromissos, e estou estudando horrores para concretizá-los, não serei hipócrita de dizer que só estou vivendo, ou só estudando. O que posso dizer é que sigo minha rotina com algumas liberdades já pensadas. Se precisar flexibilizar algo, faço. Se não precisar e sentir que estou tendo um bom desempenho, continuo como estou. Se estou cansado, descanso um pouco e compenso no serviço. Se preciso respirar, paro tudo o que estou fazendo e me dou alguns minutos, suficientes para retomar a sanidade. Se me sinto isolado, saio para a rua, vou conversar com alguém, vou brincar rapidamente com meus cachorros, mas, faço algo que sinto ser o melhor para aquele momento. Alguns podem pensar: mas, Alexandre… Fazer isso não é correr o risco de se sabotar em algum momento e procrastinar? Minha resposta é: depende do quão você convive conscientemente consigo, para saber se está ou não se sabotando. Depende também do seu estado interior, se você não se dá tempo para descansar, refletir, para ler algo bom, para brincar… Etc… Você simplesmente tentará evitar ao máximo estudar. Qualquer motivo que surja que justifique sua distração, será mentalmente reconfortante no instante que desejar involuntariamente adiar os estudos. Existe outra forma que ajuda, é estar apaixonado pelo seu sonho. Mas, não falarei tanto dessa, porque às vezes estamos tão enfadados de tudo, que nos esquecemos da sensação que sentíamos quando nos apaixonamos pela medicina. Além de ter algumas pessoas em fase de indecisão, que não saberão responder exatamente se é isso que querem. Sendo esse, um método eficaz por pouco tempo. Então, um jeito que pode ser mais duradouro é o anterior, atender as suas necessidades como indivíduo e se conhecer, para perceber quando a tentativa de se sabotar estiver tentando atrapalhar. Se conhecendo, você se respeita. E estuda com seriedade, por não achar justo ter lutado tanto para assimilar essa nova realidade e pôr tudo a perder pelas distrações criadas involuntariamente pela sua mente. É difícil pôr isso em prática… Mas, não queiram ter que tentar essa abordagem depois de reprovar anos no vestibular e ter que replanejar tudo. Existe a possibilidade buscar se conhecer melhor antes de ter que reprovar para entender a realidade do vestibular. Não acontece com todos, mas grande parte das pessoas que são aprovadas passam por esses existencialismos e precisam buscar aprendizados que sejam aplicáveis às condições delas. Ou seja, precisam se conhecer.

Considerações Finais

Sei que atualmente ando escrevendo bastante sobre temas filosóficos e algumas pessoas não gostam, por ter uma profundidade difícil de compreender de imediato, sem a reflexão, mas acreditem, se eu tivesse trabalhado mais esse lado, não teria que passar por mais uma frustração num ano em que me sentia preparado e que no momento do jogo real, não consegui externar meu aprendizado e me senti frágil, numa prova em que me preparo seriamente desde 2014. Essas coisas podem acontecer. Contudo, você pode contorná-las através do auto-conhecimento. Sei que para alguns é tolice, que aparentemente não estou falando nada com nada, e que não tenho nenhuma autoridade para falar sobre isso, já que nem passei ainda. Mas, uma coisa que aprendi perfeitamente nesse tempo em que me preparo para o vestibular, foi a respeitar as pessoas que estão há anos nessa luta. Não é fácil. E não queiram ter que perder tudo para perceber isso. Não queiram ter que reprovar anos, não queiram ter que aprender a ignorar certos comentários dispensáveis, não queiram que as pessoas olhem vocês como quem olha algum fracassado que nunca vai conseguir nada (mesmo que vocês saibam que são mais fortes do que essas pessoas imaginam). Só digo isso. Se estão começando a prestar vestibular agora, aproximem-se dessas pessoas que estão lutando contra tudo há anos, aprendam com elas em vez de olhá-las com algum desprezo. Até que sejamos definitivamente aprovados, não existe nada certo. O vestibular me ensinou que seu processo é cruel. Que muitas vezes os melhores, os que se empenham, que ralam, que sabem o conteúdo na ponta da língua, às vezes desistem. E os que sobram, levam anos para realizar. Então, mais empatia com quem está lutando. Aprendam com essas pessoas. E se você está há mais de um ano nessa luta, enfrentando tudo por esse sonho, sinto orgulho de você. Não desista, porque você vai conseguir. É só continuar caminhando e driblando o cansaço, os problemas acumulados nesse tempo e tudo mais que surgir. Vai dando o seu jeito e sinta orgulho. Porque muitos que conheci nessa jornada já desistiram. E os que continuaram batalhando, estão próximos de realizar ou já realizaram. Me admiro pela sua vontade tão grande, que não fica apenas guardada. Ela resiste a toda essa corrosão de hipocrisias que nos cerca, a sua hora vai chegar. Continue a nadar! E para não fugir completamente do assunto discutido, dê uma amenizada nesse ritmo frenético e se ouça. Muitas decisões importantes para nossa vida, além do vestibular, são tomadas enquanto você pensa no porquê iniciou tudo isso. Às vezes nos perdemos no meio do caminho, e apesar de ser determinante apenas “continuar nadando”, é necessário ter uma pausa, respirar e ressignificar muita coisa, e construir outras além dessa realidade desgastante da nossa preparação. Não deixe de desenvolver todas as suas arestas, se deixar alguma de lado, pode deformar sua figura e nunca mais recuperar sua conformidade, por mais que consiga alguns resquícios de arestas impecáveis.

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